quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Alma Perfumada



Tem gente que tem cheiro
de passarinho quando canta,
de sol quando acorda,
de flor quando ri.

Ao lado delas,
a gente se sente no balanço de uma rede
que dança gostoso numa tarde grande,
sem relógio e sem agenda.

Ao lado delas,
a gente se sente comendo pipoca na praça,
lambuzando o queixo de sorvete,
melando os dedos com algodão doce
da cor mais doce que tem pra escolher.

O tempo é outro.
E a vida fica com a cara que ela tem de verdade,
mas que a gente desaprende de ver.

Tem gente que tem cheiro
de colo de Deus,
de banho de mar
quando a água é quente e o céu é azul.

Ao lado delas,
a gente sabe que os anjos existem e que alguns são invisíveis.

Ao lado delas,
a gente se sente chegando em casa e trocando o salto pelo chinelo,
sonhando a maior tolice do mundo
com o gozo de quem não liga pra isso.

Ao lado delas,
pode ser abril,
mas parece manhã de Natal,
do tempo em que a gente acordava
e encontrava o presente do Papai Noel.

Tem gente que tem cheiro
das estrelas que Deus acendeu no céu
e daquelas que conseguimos acender na Terra.

Ao lado delas,
a gente não acha que o amor é possível,
a gente tem certeza.

Ao lado delas,
a gente se sente visitando um lugar feito de alegria,
recebendo um buquê de carinhos,
abraçando um filhote de urso panda,
tocando com os olhos os olhos da paz.

Ao lado delas,
saboreamos a delícia do toque suave
que sua presença sopra no nosso coração.

Tem gente que tem cheiro
de cafuné sem pressa,
do brinquedo que a gente não largava,
do acalanto que o silêncio canta,
de passeio no jardim.

Ao lado delas,
a gente percebe que a sensualidade
é um perfume que vem de dentro
e que a atração que realmente nos move
não passa só pelo corpo.
Corre em outras veias.
Pulsa em outro lugar.

Ao lado delas,
a gente lembra que no instante em que rimos
Deus está conosco, juntinho, ao nosso lado.
E a gente ri grande que nem menino arteiro.

Tem gente como você,
que nem percebe como tem a alma perfumada
e que esse perfume é dom de Deus.



Gosto de falar sobre a liberdade das palavras, a libertação do idioma que autoriza modelação poética à margem das convenções usuais. Tão bom escrever.. e de forma livre então! Esse belo texto escrito por Ana Jácomo segue pela net como de autoria de Carlos Drummond de Andrade. Mais uma, das inúmeras, falsas atribuições aos poetas que proliferam na net como uma epidemia.

A internet tem sido uma ferramenta eficaz ao democratizar a publicação de textos literários, mas tem, por outro lado, dado espaço a verdadeiras confusões relativas à autoria. O mundo virtual ampliou os espaços da literatura, facilitou a publicação de textos literários em blogs e sites e, sem dúvida, democratizou o acesso de estudantes e internautas em geral a textos antes restritos aos livros. Essa facilidade, entretanto, não é totalmente benéfica. Pesquisas sérias devem ser feitas em sites sérios, pois a democracia só é positiva quando está na mão de quem tem capacidade e caráter para exercê-la. O espaço virtual é terra de todos e de ninguém.

Há quem se preocupe com a credibilidade do que posta, e cita autorias e fontes; há pessoas mal intencionadas, que utilizam o ócio para fazer confusão; e há os incautos, que recebem e repassam textos sem qualquer preocupação com a autenticidade deles. Claro que ninguém é obrigado a saber de cor a autoria de todos os textos, mas, antes de repassá-los ou utilizá-los em pesquisas escolares e acadêmicas, bem como usá-los em avaliações e provas, deve-se conferir a autoria em livros ou com profissionais da área desse conhecimento.




sábado, 7 de agosto de 2010

Análogo Começo

Tudo em nossa vida começa por alguma razão, um motivo nos tira da estagnação e nos leva a ação. Um curso visa o melhoramento profissional, um novo amor, novo emprego, nova moradia a esperanças de um presente e futuro satisfatórios, quem sabe. E um blog, o que nos leva a escrever em um espaço no mundo virtual para sermos leituras (pq nossos textos levam em suas palavras pedaços do que somos) para alguns ou muitos? Penso que os apaixonados pela arte de escrever sempre estarão buscando meios para exercer sua paixão... Então, aqui estou. Muito prazer para os que ainda não me conhecem. Estou por aqui, para os que já estão acostumados com a pessoa que sou! Juntos construiremos o Mundo de Amarelinda.

E não poderia deixar de começar falando sobre um imortal que admiro muito! Fernando Pessoa, poeta e escritor português. Considerado um dos maiores poetas da Língua Portuguesa, e da Literatura Universal, muitas vezes comparado com Luís de Camões. O crítico literário Harold Bloom considerou a sua obra um "legado da língua portuguesa ao mundo".

Por ter crescido na África do Sul, para onde foi aos sete anos em virtude do casamento de sua mãe, Pessoa aprendeu a língua inglesa. Das quatro obras que publicou em vida, três são na língua inglesa. Fernando Pessoa dedicou-se também a traduções desse idioma. Ao longo da vida trabalhou em várias firmas como correspondente comercial.

Foi também empresário, editor, crítico literário, ativista político, tradutor, jornalista, inventor, publicitário e publicista, ao mesmo tempo que produzia a sua obra literária.

Como poeta, desdobrou-se em múltiplas personalidades conhecidas como heterónimos, objeto da maior parte dos estudos sobre sua vida e sua obra. Centro irradiador da heteronímia, auto-denominou-se um "drama em gente". Foi Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Bernardo Soares. Vários em um. Um em vários. Como muitas vezes, também somos!

Fernando Pessoa morreu de cirrose hepática aos 47 anos, na cidade onde nasceu. Sua última frase foi escrita em Inglês: "I know not what tomorrow will bring… " "Não sei o que o amanhã trará".

Então, para abrilhantar este começo, versos do imortal!


Análogo começo


Análogo começo.
Uníssono me peço.
Gaia ciência o assomo —
Falha no último tomo.

Onde prolixo ameaço
Paralelo transpasso
O entreaberto haver
Diagonal a ser.

E interlúdio vernal,
Conquista do fatal,
Onde, veludo, afaga
A última que alaga.
Timbre do vespertino.
Ali, carícia, o hino O
Outonou entre preces,
Antes que, água, comeces.


(Fernando Pessoa, Poemas dos Dois Exílios)