Recentemente, em um jogo do Corinthians na Copa Libertadores, o jovem boliviano Kevin Estrada, de apenas 14 anos, faleceu atingido por um sinalizador lançado da torcida do clube durante partida contra o San José. O que nos remete a um problema velho no esporte, a violência no futebol.
No Brasil, a violência bateu o recorde em 2012. Foram 17 mortes comprovadamente relacionadas a confrontos entre torcidas ou de torcedores com a polícia e cinco inquéritos ainda não concluídos que podem fazer esse número subir para 22. Os dados são fruto de um estudo realizado pelo sociólogo carioca Mauricio Murad, nos primeiros nove meses do ano.
Murad é doutor em ciência do desporto pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ ) e há duas décadas dedica-se ao estudo da violência no esporte. O balanço está publicado no livro “Para entender a violência no futebol”, lançado pela editora Benvirá.
Segundo pesquisa do diário Lance!, a violência no futebol, especialmente entre torcidas organizadas, já causou mais de 150 mortes no Brasil desde 1988. O levantamento, segundo a publicação, é baseado em uma compilação de dados de jornais de todo o país. São Paulo é o estado mais afetado, com 32 mortes, seguido pelo Rio de Janeiro, com 19 óbitos registrados. Mas, porque a violência ainda é tão forte nos estádios brasileiros e em alguns estrangeiros?
Talvez porque o poder público e as instituições não reagem. A incompetência dos que promovem os jogos é absurda. Em um jogo onde não havia desordem, como este do corinthians, só resta a imprudência como fator do desastre. Como é possível um item proibido entrar nos estádios? Fogos de artifício já foram usados como armas e eis a licença para esquecer que o homicídio foi causado também pelo organizador. Minhas desculpas aos que não concordam, mas torcedores uniformizados juntos aos desorganizadores do espetáculo construíram o 'boom' responsável pela morte do menino de 14 anos.
O episódio desta morte, lamentavelmente, caminha para ser apenas mais um nas tantas estatísticas da escalada da violência em nossa sociedade, o que é sabido, não é privilégio apenas da realidade brasileira ou da subdesenvolvida America Latina.
Se queremos tirar alguma lição desta tragédia, ainda mais com a proximidade da Copa do Mundo, a questão esportiva, deve ser colocada em segundo plano. Medidas, como as sugeridas por Murad, deveriam ser estudadas e implantadas para a resolução do problema no país, dentre as quais a instalação de câmeras de segurança, a tecnologia de reconhecimento dos envolvidos e a punição adequada.
A criação de um plano de combate à violência no esporte com articulação nacional entre várias instituições públicas, como Ministério do Esporte e da Justiça, os Tribunais de Justiça, o Ministério Público e as polícias Civil e Militar é fundamental. De acordo com Murad, a atuação do plano, basearia-se em três pilares, repressão, prevenção e reeducação a exemplo de modelos de sucesso aplicados em países como a Inglaterra, a Itália e a Argentina, onde o problema da violência nos estádios também era grande.
Na Inglaterra, por exemplo, os hooligans, como são conhecidos no país os torcedores de futebol desordeiros, chegaram a deixar 96 mortos em um episódio que ficou conhecido como Desastre de Hillsborough. Está na hora do Brasil acordar para as estatísticas assustadoras que já habitam no país há alguns anos e fazer bonito não só no gramado, mas além dele.
